sábado

No anonimato do backstage. Longe da calorosa incandescência. Sob a fidelidade fluorescente e fria, HDL presenciou a transmutação da carne em papelão. Jogou no lixo a caixa de bombons vazia, se desfez daquele coração placebo.
Aparentemente estava ileso, saíra antes da primeira espada ser enfiada. Mas devo lhe informar que possuo a onisciência e uma certa indiscrição, que vou chamar de sinceridade.
E lhe digo em primeira pessoa que não vou omitir suas contusões. Você se socava com a mão aberta pra não fazer barulho. Por isso ninguém ouviu. Foi com fúria que abafou o choro. O seu traumatismo torácico foi sem sangramento. Mas doeu. Você não queria sofrer por ter sido ludibriado por um prestidigitador de quinta, você não queria perder o sono, mas naquela noite, você perdeu.

Se conto essas coisas não é para que as use contra mim, mas sim, em seu benefício. Quando quiser se dirigir a mim, prefiro que me chame de Narrador(a), acredite, estarei escutando.

quinta-feira

HDL estatelado pensava em como reagiria. Usufruindo da racionalidade típica dos desprovidos de um coração. Será esse o seu super poder?
Não, você não foi até lá e jogou o segundo copo de cerveja na cara dele como bem aconselhou Mora Mey. Bebeu num só gole e não pediu satisfações. Você só queria, numa última apresentação, entrar na caixa mágica e desaparecer, mas o Ilusionista já sabia ensaiado o número final, era assim: HDL entra no receptáculo de madeira. O Novo Ajudante de Palco fecha a porta e entrega as espadas reluzentes, uma a uma, ao Ilusionista, que as finca nos orifícios que circundam toda a caixa com um sorriso hermético. Não há sangue. Depois tira as espadas com rapidez para abrir a porta. No lugar do cadáver perfurado de HDL surge milagrosamente o Novo Ajudante de Palco, num collant brilhante entre o gelo seco. Aplausos.